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Antirracismo para além do termo


Continuando nosso papo do último post (se você perdeu o conteúdo pode acessar

aqui), ocupar espaços de forma estratégica não significa se privar de conhecer lugares os quais sempre sonhou ou acessar produtos e serviços que vão facilitar sua vida, mas entender quais pequenas ações você pode desempenhar para nos fortalecer enquanto comunidade. Além disso, compreender o que orienta o seu desejo pelo consumo e ocupação desses espaços e onde fica o seu protagonismo nessa escolha; se foi algo que você aprendeu que deveria fazer ou ter para ser mais considerada ou respeitada socialmente ou se de fato é algo que faz sentido para você.


O que embasa a introdução desse texto é meu contato maior com produções contra-coloniais que estejam de acordo com a nossa realidade brasileira, por mais que eu utilize textos e conceitos estrangeiros sobre nossa negritude e saúde mental, alguns movimentos são muito particulares da nossa forma de funcionamento aqui no Brasil. Hoje a minha referência para esses escritos é Antônio Bispo dos Santos (Nêgo Bispo) autor do livro Colonização, Quilombos: modos e significação (2015). Ao me deparar com o conteúdo de Nêgo Bispo e suas palestras, fica nítido o uso dos espaços de forma estratégica. Podemos ocupar sem perder de vista quem somos. É necessário mudar nossas perspectivas diante das situações. De nada adianta ascende, ocupar, consumir e estar em espaços “elitistas” se para isso é necessário abrir mão de quem somos em uma tentativa de sermos inseridos no sentido de humanidade dos colonizadores.


Ainda vivemos em uma sociedade colonial estruturada em conceitos racistas que despejam seus preconceitos de forma sofisticada e atualizada. Alguns de nós atribuímos nosso valor, construção de autoestima e elaboração de projetos de vida baseados nesses preceitos. Estamos reaprendendo a nos olhar enquanto humanos por uma perspectiva nossa, assumindo nosso protagonismo. E isso não é fácil, é um movimento de esquecer tudo o que aprendemos sobre nós até aqui e criar referências que de fato nos contemplem, nos afirmem e nos forneçam sentido de vida. Um exemplo do que estou tentando dizer, são pessoas negras que conquistam uma posição de destaque acreditando que seria a solução para todos os seus problemas, mas mesmo assim se sentem adoecidas, depressivas e até mesmo chegam a cometer suicídio, como nossa querida professora Neusa Santos Souza. O racismo nos adoece e mesmo que tracemos rotas para nos esquivar, seja enriquecendo financeiramente ou tentando apagar nossa negritude, em termos de sentido e significados para “fazermos parte” do que o branco diz que é o humano, isso pode nos dilacerar profundamente.


Não tem como ser antirracista operando pela lógica colonial de consumo. Se seu consumo e ocupação de espaço está orientado para o nosso fortalecimento e valorização do sentido de humanidade que povos pindorâmicos trazem em sua essência, que é de onde vem toda a nossa ancestralidade, não haverá espaço para o racismo.


Povos pindorâmicos é a forma contra-colonial para se referir aos povos originários que foram nomeados de negros e índios pelos colonizadores ao invadirem nossas terras.


Referência: BISPO, Antônio dos Santos. Colonização, quilombos: modos e significados. Brasília, 2015.



Obs. Se for citar ou reproduzir, não esqueça de dar os créditos.

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