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Ascensão social, ocupação de espaços e consumo estratégico: uma reflexão crítica

Recentemente eu estive refletindo sobre muitas questões que nos atravessam enquanto pessoas pretas. E uma crítica que surgiu foi em relação à ocupação de espaços e que tipo de movimento estamos realizando ao consumir produtos, serviços e frequentar locais onde nitidamente querem o nosso genocídio. Locais que fazem questão de mostrar incômodo com nossa presença, através de olhares e ações.

Precisamos falar, refletir e questionar essa máxima de "ocupação de espaços". É legal ver pretas e pretos ascendendo socialmente e se permitindo adquirir uma qualidade de vida melhor do que tivemos por muitas gerações, o que nos possibilita obter momentos de respiro e lazer de forma mais tranquila, planejar nossa longevidade, ter acesso a serviços e espaços de saúde mais humanizados, ampliar o acesso à educação para as novas gerações em nossas famílias e comunidades, entre outras inúmeras possibilidades e facilidades que a ascensão social nos permite acessar. Mas nesse texto, quero te convidar a ampliar o seu olhar de forma crítica.


Precisamos nos atentar a quais locais estamos ocupando e qual a nossa intenção estando ali. Penso, muito embasada por Neusa Santos Souza em seu livro “Tornar-se Negro”, que o consumo de produtos e serviços através dessa ocupação precisa ser algo refletido de forma consciente. No sentido de entendermos como, pra que, por que, com quem ocupamos esses espaços e por último, mas não menos importante, como nos sentimos ao ocuparmos. Se é algo intencional que vai te trazer um retorno positivo para a sua construção de vida ou se é somente para sentar à mesa com pessoas que se enxergam como universais, aqui estamos falando de branquitude enquanto conceito, numa tentativa de “fazer parte” através da humanidade que essas pessoas dizem que você tem. Perceba que agora estamos falando de protagonismo. Até mesmo nessa lógica e nessa estratégia que desenvolvemos para minimamente rompermos com a violência e precariedade, ainda assim continuamos atribuindo o nosso valor ao que o branko quer, acha ou pensa de nós.


Atentarmos para um consumo consciente e usarmos a ocupação de espaços de forma estratégica, diz respeito a entender para onde seu tão suado dinheiro está indo. Digo suado porque dificilmente pessoas negras nesse país foram herdeiras de terras e negócios familiares, ou adquiriram status sem que seus antepassados tivessem sofrido com a brutalidade e barbárie da escravidão, mesmo que existam poucas pessoas negras em alguns lugares do nosso país abastadas financeiramente, houve muito sangue e suor por trás das facilidades que podem chegar a usufruir hoje. Mas até nesses poucos casos, essas pessoas não estão isentas de sofrerem abordagens vexatórias em diversas situações. Sua condição financeira não supera o racismo e faz com que mesmo podendo comprar a loja inteira, essas pessoas sejam impedidas de entrar em estabelecimentos ou sejam seguidas por todo o tempo que estiverem neles e isso vai desde a C&A até a Zara.


E a questão que fica é: será que tudo o que você lutou para conquistar precisa voltar para as mãos de empresas, marcas e bilionários que só torcem e endossam ações em prol do seu/nosso genocídio? De que forma você pode ascender socialmente e se direcionar para um consumo mais consciente, intencional e estratégico? Nosso papo não termina aqui. Semana que vem eu trago a segunda parte. Referência: Souza, Neusa Santos. Tornar-se negro: as vicissitudes da identidade do negro brasileiro em ascensão social. 2ª edição. Rio de Janeiro: Editora Graal, 1983



Obs. Se for citar ou reproduzir, não esqueça de dar os créditos.

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